A MATERNAGEM EM TEMPOS MODERNOS

Para falar sobre o assunto e, claro, sobre as dificuldades e culpas que vem no pacote da maternidade nos tempos modernos e repletos de obrigações que vivemos, é necessário primeiro entendermos a diferença entre Maternidade e Maternagem.

A Maternidade  é a condição de ser mãe. A condição biológica do nascimento: gerar e parir um filho, estando ou não preparada para isso.

Já a Maternagem, é uma condição construída. Está ligada ao cuidado, ao carinho maternal e afeto que a mãe desenvolve pelo filho. Não é pronto como poderíamos, poeticamente, imaginar. É uma condição escolhida, ainda socialmente confusa (qual seria o ideal?) construída desde a gravidez.

No nascimento há uma separação física entre mãe e bebê, na maternagem, uma união emocional. A maternidade é uma condição do corpo feminino, a maternagem pode ser uma escolha do homem e da mulher.

Não necessariamente havendo maternidade, haverá a maternagem, que aliás, algumas vezes é desenvolvida por um outro membro da família, que se torna o principal cuidador e responsável da criança, assumindo por afeto, uma função que não era biologicamente sua.

Mas como podemos conciliar o que aprendemos sobre uma boa maternagem, aplicando em uma forma de vida diferente, com outros compromissos, obrigações, expectativas, novos desafios, outras ansiedades?

Facilmente nos enchemos de culpa, começamos a nos comparar com nossas mães, vizinhas, novelas e os ideias das TVs. Começamos a comparar nossos filhos com outras crianças que tem outras realidades e comparamos eles próprios a um tipo de futuro que ainda nem está perto de acontecer, que nem sabemos (nem eles próprios sabem) se querem.

Com tanta preocupação e angústia, acabamos perdendo de vista o agora. O momento em que podemos desenvolver o vínculo mais saudável e forte pra enfrentar o que virá pela frente, para cada um individualmente e para que esta relação sobreviva, agradavelmente e verdadeiramente, ao longo do tempo.

É o momento em que nos perdemos de nós mesmo. Perdemos mais tempo buscando justificativas para o que não estamos fazendo ou o que não está funcionando, procurando dicas e mais dicas em todo tipo de fonte confiável e duvidosa possível e esquecemos que a resposta está bem ali, preparada para ser “criada”.  Sim, porque não tem nada de pronto neste processo.

A preocupação com a imagem, com as cobranças, com o que te contaram que é o correto fazer (talvez em outro tempo, em outra história, em outra dimensão…) não se aplica mais aqui.

Aqui e no agora, se aplica a dedicação verdadeira, uma construção única que só pode ser sentida e aprovada pelos envolvidos. Se isso não estiver funcionando bem, aí sim é hora de parar a explicação teórica e tentar uma maneira diferente de fazer as coisas. Não porque te falaram, mas porque não está funcionando para a criança. Também não é para garantir as expectativas dos pais – não podemos esquecer: quem precisa de proteção e deve ser a referência é a criança. Não confundir com mudar tudo pra se adaptar ao bebê. Mas sim, o bebê é a parte vulnerável e é responsabilidade do adulto a maternagem, criar um vínculo de carinho que vai garantir a segurança necessária para os próximos passos daquela vida, senão por toda a vida.

 

Roberta Nevoni – CRP: 98882: Psicóloga, com formação também em Administração de Empresas, atua na Clínica Psicológica com abordagem Psicanalítica em diferentes especificidades do comportamento humano, principalmente ansiedade e depressão em diversos momentos da vida. Constantemente curiosa sobre emoções, sentimentos e a forma como eles se expressam através do comportamento e quais seus resultados em todos os tipos de relacionamento. Atende criança, adulto e terceira idade.

E colunista no Bellamaterna.

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